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domingo, 12 de dezembro de 2010

divagação

Uma vez, quando na idade de seis ou sete anos, não sei ao certo, matei um galo. Foi meu ato mais sem intenção, o que mais me doeu pois só o joguei contra o chão para que se afogasse no lago de raiva que eu criara por que parecia que aquela era a milésima vez que o pedia educadamente que não entrasse dentro de casa, o quintal era seu lugar. Me doeu bastante conhecer a raiva desse modo. Pude sentir naquele momento que havia matado uma parte de mim, visto que tudo é uma coisa só e então o galo sou eu, minha parte que não compreende e que acha que se as pessoas estão na casa a assistir TV, então eu também posso fazê-lo, o que não é uma mentira completa.
Quando vi o galo não mecher-se, estranhei. Primeiro achei que lhe havia quebrado uma alguma parte de seu delicadíssimo corpo, mas depois eu, ser  não de todo indelicado, senti a morte tomando sua alma de galo e levando-o para a evolução. Então sensibilizada pela presença desse ser tão superior e sábio, a morte, meti-me em meu pranto e assim fui avisar minha mãe do ocorrido. Na verdade o pranto estava mais no espírito que na carne, pois por fora eu segurava mais que podia as lágrimas que rolava suaves em minha face.
Minha mãe que, desconfio gosta mais dos animais que dos humanos, olhou-me com desaprovação e com esse olhar me fez entender que já não havia nada a ser feito. Arrependida e sentindo a dor de uma parte minha que se fora, olhei para o objeto de minha tristeza e ali fiquei a observá-lo. Não sei quanto tempo durou o episódio que lhes narro, mas algum tempo depois (talvez segundos ou mesmo horas) uma galinha, razão de eu entender o amor de minha mãe pelos animais, aproximou-se e colocou seu pescoço grande e amoroso sobre o pescoço de meu galo morto. Assim ficaram horas, sei disso por que findou o dia com a escuridão da noite e a galinha só retirou-se dali quando foi dormir em seu ninho. Acho que foi nesse instante que conheci o amor e sua onipresença.
Anos depois, em 2010, quando eu já tinha dezesseis anos e já um pouco de experiência com o amor, vi o corpo de um homem que havia se jogado da escadaria para o trilho do metrô. Se talvez eu tivesse chegado na estação alguns segundos prévios, teria visto o homem, sua tentativa contra a vida, mas por sorte, e é nessas horas que eu acredito que há alguma força maior por trás dos fatos, só o que vi foi a multidão que, esquecendo-se de todos seus afazeres, se amutuava para olhar o homem. Creio que na verdade o que eles queriam não era vê-lo e sim fazer parte daquela história, presenciá-la para que depois pudesse ter alguma história para contar quando no meio de uma conversa com amigos e cerveja o silêncio começasse a incomodar. Eu, menina de interior criada por vó, que embora soubesse que coisas desse tipo acontecem diariamente, que nunca havia presenciado nada que lembrasse o suicidio de um homem por uma razão que não importava a ninguem, fiquei estarrecida. Meu espírito rezava para que o homem tivesse vivido suavemente sua morte, ou para que se sobrevivesse, o que de fato aconteceu, ganhasse alguns motivos para acreditar na vida tanto quanto eu o fazia e também para que ele sentisse que não estava (e não está) sozinho nessa existência. Enquanto isso, meu corpo erra empurrado pela multidão que, se houvesse oportunidade, não pensaria duas vezes em cobrar ingresso para os que quisessem assistir ao show rotineiro do resultado da falta de amor, quero dizer, da falta de VER  o amor, visto que Ele está em todos os lugares. Alguns riam do ocorrido, um homem tentou flertar comigo, crianças corriam a procura de ver se restava um lugar para que pudessem ver o resto da vida privada de um homem transformar-se em dominio público. Havia quem tirasse fotos, pra quê meu deus, pra quê???, outros aproveitavam a aglomeração para vender seus produtos e garantir seu sustento e ninguém pra se perguntar profundamente o por que de um homem sacrificar a si próprio em troca de, talvez, nada. Não havia um que se importasse com a alma do outro, que se disponibilizasse a amá-lo.
Compreendi nesse momento que quando minha avó dizia que eu, menina que nunca foi capaz de demonstrar sentimentos, parecia um bicho, embora sua intenção não fosse elogiar-me, eu deveria sentir como se fosse. Pois que a galinha amou seu semelhante até o fim e eu me escondia atrás das palavras com vergonha da minha tão mesquinha espécie que era quase incapaz de amar, tampouco de fazê-lo até o fim. Senti muito, ainda o faço.

2 comentários:

Anônimo disse...

Renata, você está cada vez melhor. Parabéns!

Reh Ramos disse...

Reh, adorei o texto. Me fez pensar sobre muitos dos meus valores. Parabéns.

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